RESENHA: “Os Herdeiros dos Titãs I: de lutas e ideais”, lâminas e corações em um cenário bem detalhado

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Capa
Capa

Autor: Eric Musashi
Editora: Giostri
Origem: Brasileira
Ano: 2010
Edição: 1ª
Número de páginas: 352
Skoob
Sinopse: Téoder é o maior herói de seu tempo e líder máximo dos exércitos de Atala, mas foi levado a assassinar a própria esposa por ordem da Rainha, maculando irremediavelmente sua honra. Arion, seu filho, luta contra tudo o que ele representa, e se converteu num líder revolucionário que tenta trazer de volta o velho modo de vida em sua cidade.Contudo, conflitos sangrentos e tragédias o levam a meramente lutar para se manter vivo. E tudo o que ele temia, um reencontro com o pai, se torna cada vez mais iminente e necessário, trazendo à tona feridas antigas provocadas por um crime imperdoável.

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Book Trailer:

Análise:

“Sabe, […] seria tudo tão bom se a justiça estivesse aqui e não lá no céu. Se morasse no coração de cada cidadão […] ; se fosse uma realidade e não algo inalcançável.”

—Pág. 59.

Saudações, caros leitores! Como caminham as leituras de vocês? Espero os seus passeios pelas letras estejam bons, pois a minha mais recente jornada foi agradável. Alguns duelos, muita reflexão sobre os ideais que movem algumas pessoas, além de acompanhar os efeitos do evidente declínio de valores em uma sociedade, entre outras coisas. Esse é o primeiro livro de uma duologia, que também conta com uma HQ (prequel). Viajemos por um pouco de tempo juntos…

Meu primeiro apontamento é quanto à capa. A arte – feita por Luis Felipe Camargo (DevianArt) – lembrou-me os desenhos de Milo Manara, pois, apesar de não possuir nenhum erotismo evidente, os traços parecem-me semelhantes. Além de que a pele alva na personagem ressaltam três atributos que exalam uma sutil sensualidade (lábios volumosos, olhos penetrantes e longos cabelos). Outros dois elementos que se destacam na capa são o cavalo, no qual a mulher se apoia, e a espada em suas costas. Ambos, ao menos é o que constatei com minha perspectiva de leigo, foram inseridos para quebrar um pouco o ar de fragilidade da imagem. Aprecio capas que capturam o simbolismo dos títulos e, nesse caso, o artista obteve um grande êxito. As lutas ganham vida com o cavalo e a espada – coisas que denotam enfrentamento, um lado agressivo ou selvagem – e os ideais ganham corpo na mulher – peça envolta em especulações acerca do que quer transmitir, ou seja, abstração.

O cenário criado pelo Eric Musashi nos apresenta uma sociedade decadente, entorpecida pelas maravilhas materiais (construções suntuosas, cerimônias extravagantes, crescimento descontrolado etc), enquanto a maior parcela do povo é explorada pelos nobres, que por meio de leis abusivas, lhes roubam grande parte do produto de seus trabalhos. Além disto, a soberana, uma mulher ardilosa, sedutora, gananciosa e belíssima, chamada Quetabel, diz ser uma deusa – algo que é colocado em xeque por alguns personagens – e mantém-se indiferente à miséria gritante das cidades.

Como podem perceber, esse cenário não se diferencia de nossa própria realidade, logo vocês provavelmente indagarão: “Mas o autor consegue imprimir singularidades na obra?” Eu respondo: “Sim, ele consegue tornar o seu mundo único.” Usando alguns neologismos, uma pirâmide social própria, além de economia, geografia e outras coisas, o romance consegue nos situar em um mundo completamente novo. A narração é muito detalhada, atributo que valorizo bastante e não achei exagerada. Entretanto, a ausência de um glossário na obra pode desagradar. Pessoalmente, consegui ler sem problemas, contudo sei que algumas pessoas podem ficar desorientadas com termos que não são aqueles que usamos no dia-a-dia. Inclusive, vale mencionar que na última página do livro há um mapa.

Inicialmente, o romance se alterna entre dois núcleos, ao redor dos quais os outros personagens crescem: Téoder, o herói falido em busca de redenção, e seu filho Arion, um jovem guerreiro que lembra o próprio pai em seus ideais, antes que a vida o golpeasse. A relação entre eles lembrou-me outra bastante conhecida: Darth Vader e Luke Skywalker, principalmente pelo fato de existir uma terceira peça que é responsável por toda a tragédia que eles sofrem (Quetabel, uma mulher tão vil quanto Palpatine).

Téoder variou, em minha balança, entre alguém admirável e detestável, visto que é difícil para qualquer pessoa aceitar a ideia de que é possível matar alguém que se ama e ainda tolerar outra que é a encarnação de tudo que odiamos. Ele acabou sendo uma figura digna de pena, vítima de uma escolha que ninguém gostaria de fazer. Enquanto isso, Arion surge como um rapaz dotado de grande fúria contra a figura paterna e que se deixa guiar pelo ardor desse sentimento negativo, acarretando graves consequências que o fazem repensar a razão de sua luta. O escritor manipula habilmente os personagens e acaba dando uma “aula” simples sobre os propósitos que nos movem e conceitos como justiça e honra.

Alguns personagens secundários são fundamentais para as mudanças de rumo na história, mas não irei me aprofundar neles, visto que adoro manter um suspense para incentivá-los a conhecerem a obra. Todavia, visando a clareza em minha resenha, devo comentar que senti falta no romance de uma grande virada, aquele trecho que surpreende completamente e te deixa fascinado, compreendem? O desenrolar é passo-a-passo, minucioso, logo não há um momento assombroso. O final deixa uma promessa de maior intensidade na continuação (Os Herdeiros dos Titãs II: A Mão do Destino).

A fantasia, assim como a ação, nesse romance é secundária, sendo apenas um tempero para cativar ainda mais o leitor. Isto pode ser avaliado como uma maturidade de ideias, pois muito espetáculo com pouco conteúdo (algo que nos faça refletir) pode até divertir, mas deixa uma marca que rapidamente se apagará. A mescla de cenas com nudez e guerreiros, típica do gênero Espada & Magia, também marca presença.

Como foi a primeira incursão do Eric pela literatura, encontramos algumas pedras no caminho, mas a estrada é larga, dando-nos condições de realizar um desvio seguro. Levando em conta o que falei, dou três selos cabulosos e meio para o livro!

Nota:

Avaliação
Avaliação 

Entrevista:

Eric Musashi
Eric Musashi

Olá, Eric…como está? Rapaz, a primeira entrevista que você concede ao blog, espero que goste e esta seja somente a primeira de muitas! Vamos às perguntas…

1 – Como foi o seu processo de criação para o romance? Como você descreveria a emoção que experimentou ao ver o seu livro impresso?

A criação foi muito… criativa! Eu tinha a ambição de escrever um romance original, e trabalhei algumas ideias no mundo atual após decidir abandonar de vez as fics, e bastou me deparar com textos esotéricos sobre a Atlântida para toda a estória central surgir em minha mente: Arion, Téoder, Quetabel, Astarote, o assassinato, as Planícies Proibidas. O resto foi sendo moldado ao longo da escrita do primeiro livro, e posso dizer que após Ancatébia eu já tinha bolados todos os personagens e o desenvolvimento da trama.

Ver o livro impresso foi a primeira parte da realização de um sonho. A segunda, mais difícil, é vê-lo divulgado, conhecido dos leitores. Mas estou trabalhando duramente para que também se concretize.

2 – Há um apreço maior por algum dos personagens? Em caso positivo, por quê?

Ao longo da escrita, Téoder foi me ganhando mais que Arion, algo inesperado e que lhe deu cada vez mais cenas e peso no romance. Mas minha xodó é Halá. Ela surgiu espontaneamente, ganhou um espaço absurdo para uma coadjuvante, é impulsiva e orgulhosa, porém também de bom coração. E seu passado, o que a levou à vida que possui e ao seu modo estranho de ser, é, talvez, um dos momentos mais pesados de toda a obra.

Gostei tanto dela que a fiz aparecer num conto que encerra minha trilogia A Montanha e o Mar, duas décadas depois de Herdeiros.

3 – Por enquanto, a saga conta com dois livros e uma HQ (prequel), você pretende expandir mais o cenário?

Escrevi Os Herdeiros dos Titãs em 2004. No livro, é mencionado um passado de 4 mil anos de história, diversas civilizações, filosofias e religiões, e o Apêndice de A Mão do Destino tenta deixar isso mais claro. Inevitavelmente, porém, expandi muito o universo. Além das duas obras iniciais (e da HQ, produzida em 2012), escrevi outras 5 estórias, que, juntas, somam 9 livros.

A maioria se passa em nações citadas em Os Herdeiros dos Titãs (O Filho da Serpente, meu segundo trabalho, é em Ticêmis, no coração da Ásia, uma terra de comércio e intrigas; a dualogia O Trono do Dragão é em Maral, onde hoje é a China, e Os Últimos Filhos do Gelo, outra dualogia, é em Feitícia, a península ibérica, quase um século depois de Os Herdeiros dos Titãs), porém considero uma continuação direta a trilogia A Montanha e o Mar, duas décadas mais tarde, em Grabatal. Alguns personagens antigos são retomados, como Namior, Bétus, Tromos e Ariádan, porém noutra profundidade, já que amadureceram e carregam marcas das decisões tomadas em suas vidas. Os protagonistas, porém, são sangue novo, jovens moldando um mundo que se reconstrói.

Meu último trabalho foi o romance A Balada de Antel, recuando quinze séculos para mostrar uma Grabatal completamente diferente, pré-Reino de Atala. Além de trazer o personagem mais controverso da história atalai, aproveitei para esclarecer o passado do povo que moldou decisivamente as civilizações de Grabatal, fechando o ciclo.

Por fim, tenho contos e novelas que vão desde 38 séculos antes de Herdeiros até 4 séculos depois, em Grabatal e no mundo, e pretendo reuni-los numa antologia.

4 – Como surgiu a ideia da HQ? Como foi para você fazer essa transição de mídias?

Após conhecer o belo trabalho de Evandro Menezes, contatei-o para uma HQ curta, de duas páginas, para divulgar os livros. (Você pode lê-la AQUI). A Giostri Editora, vendo a HQ, pediu que desenvolvêssemos uma de 28 páginas que eles publicariam.

Foi difícil, no começo, decidir o que eu contaria. Por fim, optei por mesclar definitivamente as mídias, iniciando antes do romance e concluindo ao fim do primeiro terço de De Lutas e Ideais. A Giostri gostou tanto que Evandro também trabalha com eles hoje.

5 – Depois de três anos do lançamento do volume um de “Os Herdeiros dos Titãs”, como você avalia o seu primeiro livro?

É um trabalho promissor. Sendo um trabalho inicial, possui erros perdoáveis, principalmente por eles irem desaparecendo conforme o livro avança. Mesmo quem criticou as descrições, por vezes, longas, não conseguiu deixar de elogiar a trama, o cenário e os personagens. E algo foi unânime nas análises: o resenhista queria muito ler a conclusão da estória.

Para mim, como autor, serviu para saber melhor o que, de modo geral, o leitor deseja. Retrabalhei todos os outros livros depois das primeiras resenhas, agilizando o texto. Claro que é impossível agradar a todos, e ouvi uma queixa sobre A Mão do Destino de que passou rápido demais. Há leitores, sobretudo aqueles que se tornam fãs da obra, que gostam de degustar o livro. Para esses, De Lutas e Ideais pode ser até mais saboroso que meus livros posteriores, ainda que estes sejam mais maduros.

6 – Vamos falar um pouco de seu lado leitor. Quais escritores você mais gosta? Por quê?

Como não poderia deixar de ser, gosto muito de autores que apresentam características que foram pontos fortes em Os Herdeiros dos Titãs. Inovação, personagens fortes e questionamentos filosóficos. Arrisco a dizer que não consigo gostar de um livro que não preencha tais requisitos. Assim, não são tantos os meus preferidos.

Dentre as influências, antes de escrever Herdeiros, destaco Noite na Taverna (Álvares de Azevedo) e Musashi (Eiji Yoshikawa). Outras grandes obras que muito estimo, e me inspiram, são: Duna (Frank Herbert), Shogun e Tai-Pan (James Clavell), O Poderoso Chefão (Mario Puzo), A Cidade e as Estrelas (Arthur C. Clarke), A Hora do Dragão e os contos sobre Conan (Robert Ervin Howard) e a série Fundação (Isaac Asimov).

Uma menção especial para O Senhor dos Anéis. Os personagens e a escrita de Tolkien não me cativam a ponto de me tornar admirador, mas sua criação de mundo em todas as camadas foi essencial no processo de elaboração de meu universo.

7 – Quais conselhos você daria para quem deseja publicar um romance?

Buscar, acima de tudo, ser original. Toda pessoa é única, mas poucas têm a sensibilidade de captar a essência de sua vivência e sintetizá-la em mensagens. Esses são potenciais bons escritores. Afinal de contas, os livros são o mundo pelos olhos do autor.

Os leitores betas são essenciais. Quanto mais leituras, melhor. Tive várias, fui meu maior crítico, tive um editor, e isso não impediu pequenas quebras de ritmo no primeiro terço de minha obra. Assim, exponha para o máximo de leitores que puder, e acolha bem as críticas. Esse é o momento de refinar sua obra.

Por fim, não pense que é um conto de fadas. Infelizmente, o nosso Brasil está há anos-luz dos EUA ou Europa. Oportunidades são raras, e não desista. Mesmo um clássico como Duna recebeu 30 negativas de editores antes de ser publicado (em uma revista, aliás). Se levou um “não”, não significa que você não tem talento ou sua obra não é boa. Editores são pessoas práticas. Decerto ele não achou que era o momento, ou seu nome não é conhecido o bastante para promover boas vendas. Por isso, insista. Evite pagar para publicar (se não tiver opção, pague um capista e você mesmo venda como e-book e rode exemplares em pequenas tiragens, investindo o resto da grana em divulgação e doando livros para blogs que possam resenhá-los).

8 – Você pode nos falar um pouco sobre seus projetos literários futuros? (caso tenha algum no momento)

O projeto, no momento, é levar Os Herdeiros dos Titãs para fora do Brasil. Tive 3 livros aprovados por uma editora, porém ela não está publicando no momento. Infelizmente, esta é nossa realidade.

Até tenho o rascunho de um projeto, porém nem penso em me dedicar a escrever agora. E nem acho que precise, afinal, tenho 9 romances e uma antologia para fazer acontecer!

9 – Como é tradição nas entrevistas que faço, o último espaço é do entrevistado para falar o que quiser!

Eu agradeço muito pela oportunidade. Um autor é o que ele tem a dizer, e não só os livros, como as entrevistas, são a chance de passar sua mensagem – seja ela qual for.

Os Herdeiros dos Titãs foi escrito quando eu tinha 18 anos, portanto, é só o começo. Sou muito feliz da recepção que a obra teve. Isso só me dá a certeza de que estou no caminho certo, e tenho muito ainda a oferecer para vocês, leitores. Tensão, dor, lutas, sonhos, ideais, vitórias… No final das contas, o mergulho em um mundo que não fez parte de nosso passado – mas que existe em cada um de vocês.

A equipe do blog agradece pela gentileza em ceder um pouco de seu tempo! Desejamos muito sucesso para você e conte sempre com o nosso apoio!

Onde encontrar o Eric Musashi no ciberespaço?

  • Eduardo

    Díficil chamar a atenção no meio de tantos livros, mas sempre tem aqueles que nos chamam a atenção, e essa, pelo menos a princípio, me chama a atenção, talvez seguindo o caminho e o sucesso de grandes e conhecidas sagas.

    A obra já gerou um subproduto, uma HQ. Já pensou em adaptar para um RPG?

    • Sim, em meio a uma produção literária em grande quantidade, conquistar leitores não é tarefa fácil. Rapaz, um RPG seria bem legal.