RESENHA: “A Aprendiz”, um romance em que a pitada de mistério poderia ser mais generosa

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Capa
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Autora: Trudi Canavan
Editora: Novo Conceito
Origem: Americana
Ano: 2012
Edição: 1ª
Número de páginas: 544
Skoob
Sinopse: Sonea sabia que enfrentaria um treinamento difícil no Clã dos Magos, porém o que ela não tinha percebido era o nível de aversão que enfrentaria de seus colegas aprendizes. Os filhos das famílias mais poderosas do reino pareciam estar determinados a vê-la falhar, não importava o que custasse. No entanto, isso não é o mais perigoso, pois Sonea pode ter traçado um destino obscuro e sem esperança devido ao seu conhecimento de um segredo tenebroso.
Onde comprar? Livraria Cultura.
Book Trailer:

Análise:

“Ela havia encarado o pesadelo e sobrevivido […] Ela o tinha visto matar e sabia que era algo que nunca ia esquecer.”

—Pág. 534.

Saudações, caros leitores! Antes de prosseguir em minha resenha do segundo livro d’A Trilogia do Mago Negro, recomendo que leiam a análise do volume anterior, para melhor compreensão desta – clique aqui. Agora, posso continuar. “O Clã dos Magos” serviu para criar as bases do cenário, fazendo o leitor assimilar este mundo fascinante, entretanto não chegou a ser um romance deslumbrante, devido a coisas que já mencionei. Com a chegada do Livro II, também senti que agora poderia exigir mais da Trudi Canavan, afinal eu já tinha sido apresentado ao seu modo de escrever e a trama em desenvolvimento. Vistam uma túnica e vamos andar pelo Clã, assim poderemos dialogar melhor.

A obra é divida em duas partes, sendo o meio marcado por um acontecimento decisivo que faz a história fluir para um rumo completamente diferente do que imaginávamos. Cada uma das partes é dividida em vários capítulos, que contém diversas partes, onde se alternam os pontos de vista (personagens), sem jamais deixar o leitor desorientado. As transições de cenas são bem feitas, jamais deixando a sensação de um corte abrupto. Vale mencionar também que cada capítulo possui um título, um recurso que sempre considero interessante para nos instigar a avançar nas páginas, uma vez que nos estimula a encontrar o sentido daquelas palavras preliminares.

Se no primeiro livro uma das questões era a cisão social entre magos e não-magos, depois da cerimônia de iniciação de Sonea n’O Clã, a questão se altera para o conflito das linhagens que são populares entre os magos. Como seria de se esperar, por não possuir uma ascendência nobre, visto que ela vem da favela e seus pais, aparentemente, foram indivíduos “comuns” (a mãe é falecida e o pai a abandonou), Sonea torna-se o alvo de muitas chacotas, tentativas de sabotagem e outros abusos. O que não está longe do que ocorre em nossa sociedade, basta que olhemos com atenção a situação precária nas escolas brasileiras, onde o bullying ainda é praticado em grande escala.

Nesse volume, a escritora vai além em sua abordagem do tema preconceitos, o que é evidentemente um dos pilares de sua trilogia, e suscita o debate sobre a homossexualidade. O ponto de partida é algo que ainda, em pleno século XXI, pessoas discutem com um ardor frequentemente pernicioso, para não dizer estúpido: seria o homossexualismo uma doença? Por mais assustador que possa parecer, há “seres humanos” que dirão sim. Enfim, penso o seguinte: sentimentos não possuem órgãos, então por que deveríamos discriminar formas de amar? Cada um deve amar como lhe é mais confortável, ponto.

Não vou dizer qual o caminho percorrido até chegar nesse contexto, pois iria estragar a surpresa, que é grande, para vocês! Gostei de ver a sensibilidade e bom senso com que a Trudi “conversou” sobre o assunto. Dá uma satisfação enorme encontrar uma obra de amplo alcance tratando com maturidade algo de extrema importância para a construção de um mundo mais baseado em um diálogo aberto, sustentado por uma argumentação lógica, sem fanatismos. Para amplificar a carga dramática, uma amizade é colocada em xeque – querem saber o resultado? Leiam o romance.

Tornando ainda mais palpável a sua criação, Trudi nos conduz por uma viagem através de outros reinos, utilizando um personagem que ganha mais destaque nessa parte da trilogia. A autora manteve uma imensa preocupação em nos mergulhar em sua fantasia, tentando sempre passar o máximo possível de peculiaridades dos lugares, costumes, economias etc, além do próprio ambiente. Já esperava isto dela, mas com o crescimento do palco da obra, obviamente o trabalho aumenta, a tarefa fica mais árdua, porém o resultado não desapontou. Aliás, vale salientar que muitos personagens têm os seus papéis revistos. Todavia, há um caso em que alguém, importantíssimo no primeiro livro, tem uma participação ínfima. Isso soou um pouco incoerente, principalmente considerando o laço de Sonea com este indivíduo.

A novidade nesse volume foi a inserção de um personagem que trás um clima muito semelhante a um suspense policial para o romance, mas que, infelizmente, foi deixado de lado, permanecendo em um estado raso. Acabei ficando apenas no desejo por mais. A obra tem muitos trechos que não acrescentam algo à história e chegam a cansar, logo desaponta ver como um personagem com grande potencial, visto que traria um clima muito atrativo para o livro, é simplesmente colocado no “banco de reservas”. Talvez ele seja mais participativo na última parte da trilogia, mas isso é apenas especulação. Considerando o que comentei, minha nota será três selos cabulosos e meio.

Sonea transforma-se de uma garota desorientada, ao se ver como parte de algo grandioso, situado além de sua compreensão, em uma peça fundamental em um jogo de poder que pode desestabilizar o mundo inteiro, desencadeando uma guerra de proporções incalculáveis. Isso é o que se vislumbra com o desfecho.

Aguardo pela conclusão dos eventos em O Lorde Supremo, mas já alerto que irei para o desfecho com muitas exigências. Como o último passo de uma jornada, espero que seja muito impactante. Boa leitura a todos!

Nota:

Avaliação
Avaliação
Novo Conceito
Novo Conceito
  • Rita souza

    Eu acho legal q os escritores peguem a fantasia para tratar de assuntos do cotidiano atual(preconceito,Homossexualidade ETC)… mas é claro q sem esquecer q se trata de um outro universo,desejo muito q o terceiro livro te agrade Ed,pois como ñ li nenhum dessa saga conto com a sua aprovação antes de gastar meu dinheirinho! kkkkk

    • A fantasia frequentemente usa o extraordinário para falar daquilo que está em nosso dia-a-dia, se ficarmos atentos, perceberemos uma série de metáforas. Rita, lembre-se que você pode até gostar do livro, mesmo que eu deteste. Não se baseie somente em minha visão 🙂