RESENHA DO FÃ – Com Cristine

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Seguindo a festa para Jack London…alguém aceita uma resenha? O bolo já acabou. Para quem aceitar a oferta, aqui está  uma análise de O chamado da floresta, feita pela Cristine!

Bio: Meu nome é Cristine, moro em São Paulo, sou analista de sistemas, dando os primeiros passos na área editorial como preparadora/revisora de textos. Mantenho o blog printStackTrace(), em que escrevo sobre meus principais interesses – ou vícios: livros, cinema e corrida -, e o Cafeína Literária. Tenho também um outro blog, Hora do pão, no qual publico algumas das receitas mais consumidas aqui em casa.

Capa
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Desde criança tenho um fraco por filmes “estrelados” por animais. Confesso, ainda hoje gosto de assistir, contudo mais pela nostalgia da infância do que pela qualidade dos roteiros. E foi através de um filme cujo principal coadjuvante é um cão que conheci a obra de Jack London. Não sabia da existência do livro homônimo à época em que assisti pela primeira vez a Caninos brancos – a versão de 1973, de produção europeia. Mas quando assisti à versão produzida pela Disney, de 1991, com Ethan Hawk no papel principal, já tinha conhecimento disso e foi o que me levou a ler o livro de London. Li também O chamado da floresta (o assunto desta resenha), ao descobrir que se passava no mesmo ambiente, mas cujos eventos eram anteriores aos de Caninos brancos.

Sinopse:

Jack London (1876-1916), que tentou a vida no garimpo em 1897, narra neste romance as aventuras de Buck, o privilegiado cão doméstico de uma família californiana. Em meio à febre do ouro, Buck é roubado de seu ambiente e contrabandeado para o Alasca. No caminho, sofre uma série de maus-tratos, até que encontra refúgio em uma irmandade de cães e, assim como os corajosos garimpeiros, vê-se na necessidade de se adaptar à vida selvagem. Buck entra em contato com sua natureza primitiva, em uma jornada de autoconhecimento, e redescobre seus instintos.

Antes de mais nada, é necessário destacar que a estória é narrada do ponto de vista de Buck, o cão. Não, ele não é um animal falante. O livro não é narrado em primeira pessoa, mas em terceira. O que quis dizer é que o narrador, mesmo onisciente, acompanha os passos apenas de Buck. Os fatos são narrados de maneira simples, objetiva e direta – do modo como um cão os enxerga, sem firulas. Frases curtas, poucos adjetivos e advérbios. O texto de London é seco, rústico, sem excessos, por vezes quase rude. Fez-me lembrar de uma observação feita por Caetano Galindo, o responsável pela versão mais recente da tradução Ulysses, de James Joyce. Ele comentou que Joyce, ao escrever Ulysses, acreditava que o texto deveria servir à estória. Não apenas ser uma ferramenta da escrita, mas sim complementar e enriquecer a narrativa. E, sem dúvidas,  London atinge esse objetivo. A forma servindo ao conteúdo.

É interessante notar que Caninos Brancos percorre caminho inverso ao de Buck. Enquanto o primeiro é um lobo – que alguns conjecturam ser descendente de Buck – que passa por vários donos até tornar-se um animal doméstico; o segundo é um cão doméstico, criado por uma família californiana abastada, que é raptado, vendido, passa por vários donos enquanto sente aumentar dentro de si o instinto animal de seus antepassados lupinos. E, enquanto acompanha as “aventuras” de Buck, o leitor é levado a meditar sobre conceitos como lealdade, liberdade, selvageria, civilidade, amizade. Aparentemente influenciado pela corrente literária que consagrou Émile Zola, o naturalismo, o autor explora um tema recorrente na época: hereditariedade versus ambiente, natureza versus educação. Até que ponto a alteração drástica no ambiente em que Buck passa a viver é responsável por sua mudança de comportamento? Ou será que a parcela maior de responsabilidade recai sobre a herança de seus antepassados lobos?

Há algo de contraditório na jornada de Buck. Ele sai da casa do juiz Miller, onde não tinha nada a fazer além de passear com o juiz e seus filhos, era bem alimentado e podia dormir sempre que quisesse. Enfim, praticamente o paraíso. E vai para o que parece ser o inferno, onde apanha, passa fome, é obrigado a fazer trabalho pesado todos os dias e briga com outros cães para se manter vivo. E, nessa transição, ele deixa de ser o cão bonachão e sossegado e passa a ser um animal valente, destemido e temido. Contudo, ao mesmo tempo em que Buck se embrutece e crescem nele a selvageria e a agressividade, imprescindíveis nesse ambiente tão inóspito, crescem nele também a sensação de liberdade e a confiança em si mesmo.

É um livro de leitura rápida, mas nem por isso pouco intensa. Para quem gosta de cães e para quem não gosta também. Afinal, a jornada de Buck é similar à de qualquer outro herói de livro.

“Soava um chamado das profundezas da floresta e, tão frequentemente quanto ouvia esse chamado – que emocionava e seduzia de forma misteriosa – sentia-se compelido a dar as costas para a fogueira e a terra batida ao redor dela ao mergulhar na floresta, cada vez mais longe, sem saber para onde nem porque; nem com isso se surpreendia, pois o chamado soava imperiosamente, nas profundezas da floresta”. (p.83)

  • Oie Cristine tudo bem?
    Gostei muito da sua visão do livro.
    Te confesso que tanto livro ou filme onde animais são protagonistas não me atraem (só animações mesmo).
    Apesar de não gostar, Buck parece ser um cachorro bem interessante e esperto. Querendo ou não histórias como a dele rendem muitas aventuras 😉

  • Eduardo

    Boa indicação. Sempre ouvi falar de Jack London por “Caninos Brancos” e “O Lobo do Mar” e cada vez mais tenho certeza de que esse é um autor que preciso ler, tanto por seus temas (animais, natureza), como por suas referências (gosto muito da corrente naturalista e de Zola). Ainda que não acredite que o indivíduo seja totalmente um produto do meio, concordo que o meio influencia muito.

    Hoje, pelo contrário, há muito a tendência de se pensar como Lombroso, de que o indivíduo nasce com determinadas características (atualmente creditadas aos genes), Daí livros assim serem interessantes porque trazem à tona uma velha discussão sobre comportamento, responsabilidade, questões importantes para a nossa própria compreensão de como viver em sociedade e tentar resolver seus problemas.

    • oi Eduardo
      Leia sim, vale muito a pena. Livros assim, que persistem em nossa mente mesmo depois de terminada a leitura, fazendo-nos refletir sobre “a vida, o universo e tudo mais” sempre são recompensadores.
      Obrigada pela leitura e pelo comentário.

  • oi Helana
    Tudo bem e vc?
    O interessante do livro é que o protagonista é um cão, mas poderia ser um homem que se aproxima da natureza e que se modifica durante o processo. Como McCandless em “Na natureza selvagem” (o livro e o filme) ou mesmo John Dunbar em “Dança com lobos”.

    Obrigada pela leitura e pelo comentário.