RESENHA: “Contos de Meigan: A Fúria dos Cártagos”, uma jornada clássica, mas com bastante criatividade

8
Capa
Capa

Autoras:  Roberta Spindler, Oriana Comesanha
Editora: Dracaena
Origem: Brasileira
Ano: 2011
Edição: 
Número de páginas: 618
Skoob
Sinopse: Meigan é um mundo diferente do nosso, morada de seres especiais e poderosos que se denominam magis. Na aparência são exatamente como nós, mas as diferenças não podem ser ignoradas por muito tempo. Os magis tem uma relação especial com a natureza e seus elementos, moldando-os a sua vontade e apoderando-se de sua força. Esses elementos, chamados mantares, não se limitam apenas aos conhecidos fogo, terra, ar e água. Existem muitos outros, como as sombras, o tempo e até mesmo o controle sobre o próprio corpo. Ter a capacidade de decifrar, entender e interagir com a natureza é um dos principais requisitos para a evolução de um magi. Para tanto, deve-se, primeiramente, entender que tudo faz parte da mesma manifestação natural e que toda matéria e energia estão inseridas em um processo dinâmico e universal. Contos de Meigan – A Fúria dos Cártagos começa com Maya Muskaf preparando-se para voltar para casa. Depois de três anos vivendo na Terra, o momento de retornar a Meigan finalmente havia chegado. Estava preocupada, pois algo afetava seu controle sobre os mantares, talvez algum resquício da misteriosa doença que a debilitou durante a infância. Com medo de estar novamente doente e para conseguir respostas, decidiu deixar de lado as diferenças com sua mãe, a principal governante do mundo magi. Voltaria a Katur, capital de Meigan, e pediria perdão por todas as brigas passadas. Assim, abandonou sua vida terrena e entrou na primeira caravana que encontrou. Entretanto, seus planos acabaram tomando um rumo muito diferente daquele que imaginara. No caminho de volta, os soldados que a escoltavam acabaram encontrando destroços e um corpo no chão. Logo que avistou o homem morto, com os cabelos tão brancos quanto sua pele e os olhos inteiramente negros, Maya soube que se tratava de um dos cártagos – antigos magis que traíram seu povo e por isso foram banidos para uma dimensão paralela. As implicações para tal presença em território magi eram gravíssimas e não demorou muito para que a garota e seus companheiros descobrissem que os magis traidores estavam tomando o Solo Sagrado e derrubado seus portões de defesa. Agora, em meio ao caos de uma violenta batalha, Maya vai precisar lutar para sobreviver e conseguir responder as perguntas que tanto lhe afligem. Como os cártagos conseguiram acesso ao Solo Sagrado? Onde estavam os guardiões dos portões, os mais poderosos guerreiros de Meigan? E, a mais importante de todas, conseguiria chegar a Katur a tempo de encontrar sua mãe?
Onde comprar? Editora Dracaena, Diretamente com a Roberta Spindler (Envie um e-mail para contosdemeigan@gmail.com e faça o pedido)

Book Trailer:

Análise:

“Não há solução. Não há fuga. Ele simplesmente virá e ceifará toda a vida. É a natureza de todas as coisas. Tudo deve morrer para que a nova vida comece.”

—Pág. 20.

Saudações, caros leitores! Esta será a minha primeira resenha do ano e espero começar com o pé direito. A obra é uma fantasia, escrita por duas brasileiras. Sendo uma delas a Roberta Spindler, publicitária, que já se aventurou em diversas antologias, e a outra Oriana Comesanha, formada em psicologia e com contos ainda não publicados. Ambas são fãs do que poderíamos chamar de cultura nerd (HQs, videogames, cinema, RPG e seriados muito elogiados – Arquivo-X etc). Estou fazendo essa introdução porque ao longo da obra percebemos como cada parte de suas formações acadêmicas e culturais foram fundamentais para o resultado excelente do qual pude desfrutar.

Uma das coisas que mais me marcou foi o texto moldado a partir da Jornada do Herói, com cada etapa claramente definida, permitindo que qualquer leitor se familiarize com a questão. Criar algo completamente original, atualmente, é praticamente impossível, visto a abundância de material que já foi produzido. Contudo, o que cria o destaque para algumas obras é a dosagem de criatividade que se conseguem injetar nos trabalhos. Algo como dar a sua voz para as palavras, conseguem me compreender? O trabalha a quatro mãos rendeu um fruto deliciosamente suculento (618 páginas de um sonho compartilhado).

Contos de Meigan: A Fúria dos Cártagos, dentro do cenário literário brasileiro, faz enxergar ainda mais as pérolas que temos em nossa nação. Sinceramente, posso apontar sem hesitação o grande motivo para as obras de fantasia não venderem muito: falta de incentivo das grandes editoras e veículos de comunicação como rádio e televisão (mais acompanhados pela população brasileira). Considerando esse contexto, posso classificar a Dracaena, assim como outras editoras que apostam as fichas no Brasil, como verdadeiras guerreiras. Os devidos tesouros serão obtidos, pois vocês fazem um trabalho extraordinário, indo na contramão de um culto cego a tudo que é estrangeiro. Infelizmente, como um país colonizado e não colonizador, parece que ficou enraizada essa tendência de sempre recorrer a coisas de outras origens. Ainda bem que possuímos alguns focos de resistência.

Observo bastante as estratégias de um livro para me fazer avançar na leitura e Contos de Meigan foi direto em meu “Calcanhar de Aquiles Literário”: o suspense. A obra começa estabelecendo uma atmosfera de fatalidade, o que por si só já gera apreensão no leitor, e depois dá uma drástica acalmada. Entretanto, somos tomados de assalto por uma sequência de ação. Aliás, quero salientar que as descrições de batalhas ficaram excelentes. Como cheguei aos livros por meio dos filmes e também jogo RPG, acabei criando o hábito de ser muito exigente com os escritores na parte de me fazerem enxergar através de suas mentes. Outro aspecto que auxilia a tornar os eventos narrados ainda mais visuais é a divisão da obra em capítulos com nomes, como em um seriado.

A personagem Maya Muskaf, apesar da sua importância em momentos cruciais, não é a única que temos a oportunidade de conhecer mais intimamente. O foco narrativo varia entre diversos personagens, dando uma leve noção do cenário que esta saga (serão três livros) irá formar. Apesar do mundo de Meigan ser uma realidade que transborda magia, tanto que qualquer habitante pode manipular os mantares (elementos), a principal preocupação é com o estabelecimento e desenvolvimento das relações de poder entre as pessoas. Há batalhas impressionantes, porém os sentimentos e intenções que as orientam são mais importantes que o espetáculo de sangue sendo derramado. Os personagens não saem incólumes de suas experiências, seja no sentido físico, espiritual ou ambos (o que é maioria).

Acredito ser indispensável um trabalho extremamente rigoroso com sagas, pois um pequeno erro pode acabar comprometendo os volumes subsequentes. Seja desestimulando o leitor a continuar neste caminho ou não obtendo êxito em tornar “sólida” a sua ficção, ou seja, fazer com que vejamos e sintamos outro mundo ao mergulhar na aventura. Todavia, não basta transmitir esses sentimentos pungentes, tem que se criar uma plausibilidade no fantástico. Algo como Tolkien fez ao criar a Terra-Média com o seu próprio sistema econômico, línguas, panteão etc. É uma tarefa árdua, mas, quando bem executada, resulta em algo belo como o livro da Roberta e da Oriana. Quase me esqueci de dizer, o livro usa neologismos e, em alguns instantes, conhecemos mais da história, cosmogonia, política etc deste lugar exótico. Fascinante.

Como é necessário, para manter o leitor preso à história, alguns mistérios não são explicados. Mas, podem ficar tranquilos, nada é por um acaso, percebe-se apuro na seleção das informações que nos são entregues e coisas que vocês vão ler podem acabar fazendo sentido dezenas de páginas depois. Obviamente não vou lhes mostrar o mapa do tesouro (soltar spoilers). O desfecho do primeiro livro foi espetacular, deixou-me aflito. A única observação que tenho a fazer é quanto a pequenos erros de revisão, mas eles são tão poucos que ficam ofuscados pela qualidade do romance e sequer chegam a atrapalhar. A minha nota são cinco selos cabulosos! Aguardem, em breve publicarei uma entrevista com a autora. Se você quer ler uma excelente fantasia em janeiro, aqui está uma dica!

Nota:

Avaliação

Resenha no Leitora Viciada (recomendo que vocês leiam essa análise também!)

  • Linkei a resenha na do meu blogue 🙂 Adorei. Para mim, este é o melhor livro de Fantasia nacional. Beijos.

    • Obrigado, Tati! 😀 Agradeço pelas palavras de boa energia que você sempre oferece. A Roberta e a Oriana criaram algo magnífico, ainda mais para um primeiro romance.

      Beijos!

  • Rita Souza

    faz tempo q vc ñ se elpolga tanto com uma resenha hein! já é fato q eu preciso desse livro,ele é quase uma prioridade da minha lista, porq estou escutando falar muito dele,e é claro são ótimos comentários!
    agora pergunta… será uma saga?se for,ja se sabe de quantos livros?

    • Contos de Meigan é muito bom! Sei que você gosta de fantasia também, por isso lhe recomendo! Sim, será uma saga de três livros. Quando comprar e ler, me diga o que achou!

  • Te confesso que não gosto de livros de fantasia não.
    Outro dia recebi um da Dracaena e tá lá sem ler (isso é uma coisa que a Editora tinha que revistar, é a 3° vez que recebo livro que não gosto de ler), to pensando em enviar para uma das minhas colaboradoras.
    Mas, mudando de assunto, uma coisa em sua resenha me chamou atenção…A Dracaena é sim uma guerreira quando se fala em publicação de nacionais, a gente até teve aí um episódio tenso da Novo Conceito e tudo mais.
    Existem algumas boas editoras que investem pesado na literatura nacional, basta achar aquela que se encaixa melhor. 😉
    Beijos no coração.

    • Normal, livros são uma relação de afinidade mesmo, assim como acontece com músicas, roupas etc. A Dracaena envia o livro automaticamente sem consultar o blogueiro? Estranho isso.
      Verdade, há muitas editoras que publicam diversos escritores brasileiros. Só precisamos correr atrás delas.

      Beijos!

  • Eduardo

    Já tinha lido uma resenha sobre esse livro, e somando-se a essa fiquei com muita vontade de ler. É realmente difícil num livro de estreia, mesmo a quatro mãos, fazer uma obra desse porte, com tal nível de detalhamento e sem cair em conhecidas mas repetidas armadilhas, numa história gigante (mais de 600 páginas) e ainda encerrando com um “desfecho espetacular”. Se tiver a sorte de ter a oportunidade de ler esse livro, não a perderei.

    • Fico feliz em saber que a minha resenha reforçou a sua vontade em ler a obra! Compre, você não irá se arrepender!