RESENHA: “2013 – ANO UM”, A DESTRUIÇÃO QUE ABRE CAMINHO PARA ALGO NOVO

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Capa
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Autores: Vários
Editora: Ornitorrinco, Literata
Origem: Brasileira
Ano: 2012
Edição: 
Número de páginas: 204
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Sinopse: Conforme a humanidade se encaminha para a data em que o mundo deve acabar, segundo a profecia dos Maias, surge uma questão: E se sobrevivermos? Nesta antologia foram reunidos um time de autores que nos apresentam suas visões de como o mundo vai renascer. Alguns com esperança, outros com desespero, mas nunca esquecendo que um recomeço é sempre uma surpresa. Se as previsões estiverem corretas, 2012 vai marcar o fim da civilização que conhecemos. Junte-se, então, aos poucos sobreviventes e descubra como será o novo início. Bem-vindo a 2013, o Ano Um.
Onde comprar? Aqui (Editora) ou com o autor Sandro Quintana (maiores informações após a resenha).

Análise:

“Permaneceram apenas ruínas de um mundo perdido, quase esquecido. Mesmo assim, as palavras contidas nas páginas de seus livros ainda emanavam uma poderosa energia, como se sussurrassem pelos corredores, exigindo reverência e respeito.”

—Pág. 113, “Os Filhos do Dragão”.

Saudações, caros leitores! Desde que o homem obteve o conhecimento de sua finitude, isso costuma aterrorizá-lo, o medo pode não se manifestar sempre no mesmo indivíduo, mas todo o tempo está rondando a humanidade e arrebatando alguém. No embate contra este fato, muitas sociedades chegaram à conclusão de que esta linha que vai do nascimento ao falecimento se estenderia ao planeta ou até mesmo o universo, logo as mais distintas perspectivas se formaram acerca da questão. Há quem viva em um mar de desespero, mesmo que saiba maquiar as suas emoções para aqueles que o cercam, e outros que veem nisso o incentivo para aproveitarem as suas existências ao máximo, a coisa vai de oito a oitenta nesse âmbito. A literatura fantástica, como palco para suscitar debates e estimular a nossa imaginação, não poderia se ausentar de dizer algumas palavras sobre o tema, portanto, irei comentar o que achei dos contos presentes na antologia “2013 – Ano Um”.

O prefácio fala um pouco sobre os efeitos da ideia do fim do mundo no nosso dia-a-dia, como afeta a nossa relação interpessoal e interfere na percepção de grandes tragédias, algo que não deixa de ser um apocalipse, no sentido amiúde associado à palavra, uma vez que aqueles que morrem perdem a consciência de tudo. Também são citadas algumas obras clássicas e outras mais recentes da literatura que abordaram o tema, possibilitando ao leitor que busque os livros ou contos mencionados a fim de saber melhor como a literatura se debruçou nisto até o presente momento. Antes que os contos comecem, somos convidados a pensar se um grande evento é necessário para que alteremos o destino de nossos passos como coletividade, criando um futuro diferente daquele que está sendo pintado. Com a indagação final do prefaciador, a leitura começa perfeitamente, pois somos instigados a formular uma solução para o problema e ficamos ansiosos para saber como cada escritor trabalhou a proposta apresentada pelas editoras.

Terra Brasilis – Gerson Lodi-Ribeiro:

Nessa história um fenômeno muito estranho na linha do tempo ocorreu no mundo, contudo no Brasil o efeito foi singular. Os protagonistas são um grupo de militares, daí poderíamos imaginar que algum grande conflito poderia ser travado, mas o que vemos é uma jornada rumo a um foco de esperança (sem mais informações para evitar spoiler). Durante o texto há trechos em inglês, os quais consegui compreender, entretanto acho que notas de rodapé deveriam ser usadas. O desfecho deixa muito a desejar. Histórias curtas, como é caso das presentes neste livro, devem criar ao menos um grande ponto de virada para realmente impactar o leitor, mas ao concluir a leitura deste conto fiquei com o pensamento: “E…?”. Não consegui me emocionar de alguma forma.

A Rapineira – André Zanki Cordenosi:

Aqui não temos tempo para respirar, uma mulher empreende uma missão, porém o terreno em que está situada é infestado de inimigos perigosos que não chegam a ser claramente definidos pela autora, mas a própria indefinição somada ao nome que é usado para designa-los (Predadores) é o suficiente para nos incutir com uma agonia que vai crescendo cada vez mais e só nas últimas páginas começa a ser aliviada. A protagonista também nos demonstra que o apocalipse tornou-a ainda mais “humana”, ampliando o seu senso de comunidade, após ver que para sobreviver seria indispensável unir-se em um grupo bem coordenado. Gostei como foi dosada a ação, suspense e drama.

Antigos – Duda Falcão:

Em “Antigos”, o conhecimento histórico é analisado como uma ferramenta de dominação. É do conhecimento de todos que a história normalmente é contada pelos vencedores, sendo a perspectiva dos derrotados conhecida somente mediante a exposição de alguém que trabalhe para nos trazê-la. O texto é dividido em cenas-ambientes, o que faz o leitor sentir-se ao lado do personagem principal que procura tomar ciência da sua origem e como o mundo atingiu o estado atual. Apesar de estarmos muito perto do protagonista, acabamos nos surpreendendo com uma revelação.

A Imagem do Homem – Carlos Relva:

O conto começa com um clima de paranoia, sustentando pela formulação de uma conspiração contra uma instituição responsável por regular a sociedade, porém o que vemos é somente um borrão do verdadeiro contexto, pois a parcialidade dos personagens que assumem o papel de interlocutores é absoluta e isso gera algumas surpresas. O título assume um sentido extraordinário quando conhecemos a verdade, mas antes disso não entrega sequer um pingo do que nos espera.

O Último Homem – Ademir Pascale:

Tudo começa demasiadamente simples, mas o autor consegue desenvolver bastante o personagem e até me surpreendeu. Era uma história para a qual não pensava que fosse bater palmas, talvez seja uma das que mais me surpreendeu, mas não necessariamente a que mais gostei. A história começa em um ponto do futuro e depois retrocedemos para elucidarmos as coisas. A narração pode parecer um pouco confusa, mas avalio essa desorientação como necessária para nos sentirmos na pela do personagem, com a leitura vocês poderão compreender melhor o que estou dizendo.

Projeto Olimpo – Paulo Fodra:

A mente de uma criança apresenta o esboço do projeto que visa salvar a humanidade ou pelo menos alguns representantes da espécie para que o planeta seja repovoado, esse é o estopim do texto do Paulo Fodra. Fico fascinado quando a ficção se torna um canal para suscitar um debate extremamente pertinente e durante essa leitura vi nos parágrafos uma reflexão sobre a grande importância que damos ao avanço tecnológico, mesmo que isso nos custe alguns anos da expectativa de vida ou prolongue, mas ainda nos jogando em um mundo com pouca qualidade. Obviamente o desenvolvimento de máquinas nos trouxeram várias maravilhas, mas elas por si mesmas de nada valem. O que confere valor à máquina é o uso que fazemos dela. O final me deixou boquiaberto, uma mensagem forte como um soco no estômago.

Para Viver na Barriga do Monstro – Roberto de Sousa Causo:

É mostrado como o sistema em que vivemos é baseado em uma estrutura frágil, extremamente necessitada de mecanismos que se falharem vão trazer consequências pavorosas. Realmente o conto é assustador por ser tão real, o temor dos personagens é algo plausível. É interessante citar a escolha da Amazônia como palco dessa narração, pois isso serve para nos apresentar a seguinte pergunta: O que é civilização? Constatamos que evidentemente não é sofisticação no modo de vida, uma vez que pessoas que se matam com armamentos de última geração por disputas mesquinhas não são um símbolo de evolução intelectual, ao menos a lógica nos grita que não. A minha única crítica é quanto ao uso de palavras em inglês, pois mesmo que eu entenda, outros leitores podem não compreender, mais uma vez, recomendaria o uso de notas de rodapé.

Os Filhos do Dragão – Sandro Quintana:

Nesse conto o autor retrata como os livros são importantes para a preservação da identidade de um povo. O que vemos é um ancião conduzindo um grupo de crianças por uma biblioteca para lhes falar sobre o tempo antes do avô do avô do seu avô, ou seja, é uma grande viagem ao passado, um tempo em que as coisas eram radicalmente diferentes, com um clima de épico. A imagem fantástica é construída magistralmente, o ancião faz as crianças silenciaram com as suas palavras ao redor de uma fogueira. Cheguei a ver o texto como uma grande poesia, realmente belo! No final das contas, descobri que eu sou um filho do dragão. O que seria isto? Vocês só irão descobrir quando lerem.

Reino – Josué Oliveira:

Nesse caso o apocalipse é comentando pela ótica de alguém que antes mesmo do grande evento já sabia o quanto a sociedade estava imersa em um culto ao efêmero, consumindo de forma desenfreada sem notar os sinais de que as coisas não estavam indo bem. Essa perspectiva lembrou-me do clássico cinematográfico de George A. Romero, “Madrugada dos Mortos”, em que os mortos-vivos são usados como uma metáfora para o consumismo. O protagonista, alguém que esteve sempre à margem da antiga sociedade, coloca-se como um Rei, visto que conhece a cidade como a si mesmo e a sente como parte de seu organismo, o que não deixa de ser verdade, uma vez que ele sempre pôde enxergar a face mais crua da selva de pedras. O final deixa espaço para especularmos sobre qual a real necessidade de uma figura central de autoridade para a conservação das sociedades.

O Dia em Que as Nuvens Caíram – Adriano Siqueira:

O conto é ágil, a explicação sobre o que trouxe a destruição, assim como todos os acontecimentos subsequentes, é breve, talvez deixando alguns leitores com vontade de que a história fosse mais desenvolvida. Acho que a ideia central poderia render um bom livro. O grande ponto alto é a nova leitura que o Adriano fez dos zumbis.

Irmãos do Espírito – Daniel Tréz:

Uma crítica ácida à cultura de controle massivo, dando ênfase na esfera religiosa. O autor não formula um parecer sobre as religiões, mas usa esse viés para expressar como a liberdade é muitas vezes sacrificada em nome de uma tranquilidade, dentro da qual a vida se torna infrutífera e as pessoas não possuem o direito à palavra, independente do cargo que ocupem. O final nos demonstra a falta de sentido no pensamento da guerra como instrumento para edificar a paz, algo recorrente em nosso próprio mundo em países imperialistas.

Deixando o Condado – Ana Lúcia Merege:

A referência a Tolkien vai além do título, mas não direi os detalhes para não estragar a leitura de vocês. Gosto de histórias com referências, mesmo que não sejam literárias, pois isto enriquece o texto e aumenta o entretenimento. Aqui, algumas pessoas manifestam o desejo de irem além do local em que estão refugiadas após o apocalipse a fim de descobrirem como a terra realmente está, contudo outras pessoas acham que isto pode representar um alto risco ao modo de vida de todo o grupo. O conto termina em aberto, deixando o leitor com a mesma emoção dos personagens acerca do futuro: um mar de sombras.

Sempre o Sol – João Rogaciano:

O conto é narrado em primeira pessoa e nele, como em alguns dos textos anteriores, o personagem principal conduz uma busca pela verdade, ação que pode lhe custar a vida. O legal é o sentido que tudo ganha com a revelação final, cheguei à conclusão de que de certa forma algumas pessoas vivem como na realidade imaginada nessas linhas.

O Retorno – Marcelo Bighati:

O Marcelo optou por realmente trabalhar a profecia Maia em seu texto e trás um excelente conto de ficção científica, a sensação que tive é que a história poderia ficar ainda melhor, caso o autor dispusesse de mais espaço para explorar a trama, mas o final não decepciona. A conclusão encontra respaldo na realidade, pois quantas vezes não vemos ações benéficas serem retribuídas com barbáries? Sim, meu objetivo é lhes despertar a curiosidade pela obra, portanto não darei mais informações.

Mariana – Tibor Moricz:

Esse foi o conto que mais gostei porque o autor trata a ideia do apocalipse muito diferente do que as demais histórias fizeram, não que isto seja motivo para desmerecimento do trabalho dos outros escritores, mas já é um diferencial que me cativou e a qualidade da escrita é excelente. Nesse caso, um homem vive um fim do mundo particular, a sua vida é completamente amarga, sem alento, ou seja, antes mesmo do mundo ruir, o protagonista vive em desolação e o advento do apocalipse surte um efeito contrário ao que costumamos ver em histórias escatológicas, pois o fim do mundo ao seu redor faz com que ele se impulsione para ir obter aquilo que até então ignorou.

O posfácio fecha a antologia comentando como o tema da antologia sempre cativou o ser humano e vai continuar despertando reflexões, seja pela trilha da espiritualidade ou ciência, afinal o nosso próprio fim é algo com o qual todos vão ter de lidar, não importa cor, etnia, sexo, convicções etc. A morte, afinal, é uma grande expressão da nossa igualdade.

Gostei do trabalho gráfico, os poucos erros de revisão e diagramação que encontrei não chegam a afetar a leitura, tornando-os motivos para críticas, as páginas pretas que vem antes de cada conto funcionam como representações das trevas associadas ao fim do mundo, mas a escuridão é seguida pela luz de um novo começo (as páginas com as histórias). O tom amarelado das páginas é agradável aos olhos e as bios ao final de cada conto são legais, pois os leitores sabem os meios para entrar em contato com os escritores ou se eles possuem outros trabalhos publicados. Recomendo este livro e dou quatro selos cabulosos!

Nota:

Avaliação

Extra:

Este extra não diz respeito à “2013 – Ano Um”, mas a um miniconto do autor parceiro do blog, Sandro Quintana. Este miniconto segue como um bônus para quem encomendar a antologia com ele.

A história chama-se “O Pesadelo dos Pesadelos” e ao que tudo indica acompanha a rotina de um homem em seu trabalho exaustivo devido à repetição. O caráter cansativo das ações para o personagem se reflete no texto com o uso constante de um trecho do conto (“Preencheu, assinou, carimbou, e digitou”). É admirável como as coisas mais rotineiras podem se transformar em boas narrações de terror, bastando para isso o uso de algumas palavras mais apropriadas para que o clima desejado seja alcançado. No final das contas, vemos que o que chamamos de realidade pode ser o pesadelo de outra pessoa, sendo ela parecida ou não conosco. Dou cinco selos cabulosos para o conto!

Nota:

Avaliação

Onde encontrar o Sandro Quintana no ciberespaço?

Quem quiser encomendar o livro com o Sandro (o que recomendo, pois ainda vem com o conto bônus) deve entrar em contato pelo e-mail: andarilhor@uol.com.br
  • carliane sousa silva

    achei interessante e bm intenso. =]

    • Sim, Carliane, a antologia foi muito bem organizada, espero que após a sua leitura, você me diga o que achou.

  • Rita Souza

    é parece ser um livro fascinante,ver o fim do mundo(ou o começo)cheio de contos e tal!! gostei bastante assim q tiver opurtunidade quero ele!!

    • A antologia fala sobre o recomeço, seja ele em um tom pessimista ou otimista, mas, antes de tudo, ainda dá alguma esperança.

  • Eu sou um filho desnaturado (ou um criador insensível, sei lá), pois só agora comento sobre essa resenha de um livro de antologias que participei! Isso é indesculpável (apesar de que a Serena e o Lucien já me conhecem bem… 🙂 ).
    Ednelson, excelente resenha! Soube comentar os contos sem entregar surpresas. E fico feliz que tenha gostado do meu. Agora vamos esperar para saber qual autor acertou a retomada da civilização “humana”, pois 21 de dezembro está chegando aí! Um grande abraço!

    • kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk O seu filho fico ao relento todo esse tempo 😮 Brincadeira. Obrigado pelas palavras, sempre tento resenhar sem entregar o tesouro. Verdade, vamos fazer um bolão? Quem sobreviver, pega a grana.