FILME: “LOUCA OBSESSÃO” (CRÍTICA)

2
Cartaz
Cartaz
Título Original: Misery
Gênero:  Suspense
Duração: 107 min
Ano de lançamento: 1990
Direção: Rob Reiner
Roteiro: Stephen King (Romance); William Goldman (Roteiro)
Produção: Rob Reiner; Andrew Scheinman
Orçamento:  20,000,000 milhões de dólares
Bilheteria (somente nos Estados Unidos): 61, 276,872 milhões de dólares
Elenco: James Caan (Paul Sheldon); Kathy Bates (Annie Wilkes); Richard Farnsworth (Buster); Frances Sternhangen (Virginia); Lauren Bacall (Marcia Sindell); Grahan Jarvis (Liby); Jerry Potter (Pete)
Sinopse: Paul Sheldon (James Caan) é um escritor famoso que sofre um acidente de carro, sendo socorrido por uma enfermeira (Kathy Bates) que se autodenomina sua fã número um. Ela o leva para sua casa e passa a cuidá-lo. Mas, ao ler os originais do novo livro do escritor, percebe que sua personagem predileta será morta, fazendo com que sua personalidade doentia se revele. Sem poder se locomover, Sheldon se vê à mercê das loucuras da “fã”.
IMDb
Trailer:

http://www.youtube.com/watch?v=NSXqDLm9hf0

Análise:

“Eu sou sua fã número 1. Não se preocupe com nada. Você ficará bem. Eu cuidarei de você. Eu sou sua fã número 1.”

—Annie Wilkes.

O filme possui uma ideia básica que pode parecer simples para muitos, mas como sempre Stephen King consegue nos surpreender transformando o banal em uma verdadeira e ampla experiência de horror, mostrando que nem sempre é necessário recorrer às cenas de violência descomunal ou monstros horripilantes para inserir na mente dos espectadores ou leitores o sentimento de medo, angústia e apreensão.

Paul Sheldon é um escritor de enorme sucesso, assim como a personalidade real à qual seu nome é uma homenagem (Sidney Sheldon), e após finalizar o seu mais novo romance começa a viagem para entregar o manuscrito para publicação, contudo durante o seu caminho é atingido por uma nevasca e o seu carro acaba capotando. Após ser socorrido pela gentil mulher chamada Annie Wilkes é levado para a casa dela onde começa a ser tratado e conhece a sua fã número 1.

Kathy Bates consegue atuar com tamanho talento que nos induzir a crer cegamente que Annie Wilkes se trate de uma gentil e solidária mulher, preocupada com o bem-estar de seu autor favorito. Caso não já soubéssemos alguns dados sobre o enredo seriamos absorvidos pela doçura que emana de sua voz e gestos aparentemente de sincero amor. Com o fluir da trama começamos a perceber que por trás de toda a suposta bondade de Annie se escondem propósitos e segredos tenebrosos.

O filme, apesar de possuir cenas em ambientes externos (floresta, cidade), consegue preservar a atmosfera claustrofóbica nas cenas rodadas entre Annie e Paul. Ele não é inteiramente um suspense doentio, digno de ser comparado com as obras de Hitchcock, mas igualmente possui traços de humor negro, visto que retrata de forma exacerbada algo que é comum às pessoas que possuem o hábito da leitura: o amor que acabamos desenvolvendo por alguns personagens, às vezes a tal ponto que queremos sempre mais dele. Obviamente que esta característica no filme é levada à níveis doentios, mas não deixa de ser algo palpável, uma coisa que está bem do nosso lado.

Outra coisa que me chamou a atenção é como Annie Wilkes diz que lamentaria muito caso Paul morresse e ela não pudesse mais se deliciar com histórias de Misery (personagem que lançou Paul Sheldon ao estrelato e protagonista de todos os seus romances). Isso me deixou intrigado, pois de certa forma King conseguiu “antecipar” algo que ele mesmo viveria em 1999 quando foi atropelado por uma van e, por muita sorte e um tratamento intensivo, conseguiu sobreviver. Durante algum tempo King recebeu diversas cartas de Fãs dizendo como lamentariam se ele tivesse falecido, pois nesse caso “A Torre Negra” (saga ainda incompleta na época) jamais seria concluída. Inclusive vale mencionar aqui o caso de uma carta que Stephen King recebeu de uma mulher dizendo que tinha câncer, que poderia morrer a qualquer momento e que desejava mais que tudo poder saber o final da aventura do pistoleiro Roland Deschain em busca da lendária Torre Negra. Se a história dessa mulher era verdade ou não jamais saberemos, mas podemos notar aqui como o amor a um escritor ou personagem pode chegar a camadas elevadas.

O longa-metragem também fala, mesmo que muito brevemente, sobre a necessidade que escritores às vezes sentem de romper com suas criações para amadurecerem. A maneira como o processo de criação artística é interpretado como um ciclo de vida e morte, fato manifestado na ação de Paul Sheldon em matar a personagem Misery, criação a qual se sentia preso, é fruto, sem dúvida alguma, de uma mente com autoridade suficiente para falar acerca disto.

“Louca Obsessão” é uma das poucas adaptações de Stephen King que conseguiram cair em uma mão talentosa o suficiente para lhe dar uma direção correta. Acompanhando o drama de Paul Sheldon tive a impressão de que King em alguns pontos estava falando dele mesmo. Não vou entrar em maiores detalhes para não estragar a surpresa de vocês. Recomento este filme! Só um aviso…cuidado com pessoas que disserem que são seus fãs número 1! Até outro momento! O filme vai receber cinco selos cabulosos!

NOTA:

Curiosidades:

  • Aparição: [J.T. Walsh] Chefe de Polícia do Estado do Colorado.
  • Aparição do Diretor: [Rob Reiner] Piloto do helicóptero.
  • Depois de ver O Iluminado (1980). Rob Reiner ficou imediatamente inspirado para dirigir um filme baseado numa novela de Stephen King.
  • Os livros do personagem Paul Sheldon são publicados pela editora Viking. A mesma editora que publicava os livros de King na época.
  • Uma fita de vídeo de Harry & Sally: Feitos um para o Outro (1989) (dirigido por Rob Reiner) pode ser vista na loja de conveniência.
  • O “cara que enlouqueceu num hotel nas proximidades” é uma referência à O Iluminado (1980).
  • O papel de Paul Sheldon foi oferecido à Jack Nicholson, mas ele recusou porque não estava bem certo se queria fazer outro filme baseado em uma novela de  Stephen King depois do que ele havia experienciado com Stanley Kubrick em O Iluminado (1980).
  • Quando Annie manda Paul queimar seu manuscrito, ela acende o papel e nós vemos um close-up nas palavras nele, que é um artigo sobre Cameron Crowe e como ele é um roteirista incrível. Fala sobre seus filmes, mas na maior parte elogia mais o filme Digam o que Quiserem (1989).
  • De acordo com o livro “Four Screenplays” de William Goldman, o papel principal, Paul Sheldon, foi oferecido à William Hurt, Kevin Kline, Michael Douglas, Harrison Ford, Dustin Hoffman, Robert De Niro, Al Pacino, Richard Dreyfuss, Gene Hackman, Robert Redford, e Warren Beatty, todos eles recusaram.
  • Foi oferecido à Anjelica Huston o papel de Annie Wilkes, e ela ficou interessada, mas não pôde aceitar devido a seu compromisso com o filme Os Imorais (1990). Bette Midler também recusou, antes do papel ir para Kathy Bates.
  • Uma das primeiras máquinas de escrever de Stephen King tinha um “N” que não funcionava, exatamente igual a de seu personagem, Paul Sheldon.
  • O manuscrito que Annie quer queimar é do livro “Fast Cars” (embora essa informação só apareça na novela).
  • Numa recente entrevista com Melvyn Bragg, William Goldman revelou que alguns atores não queriam o papel de Paul Sheldon, porque Annie Wilkes roubava a cena na história demais. Warren Beatty comentou antes de recusar o papel que a cena da marreta fez de Paul Sheldon “um perdedor para o resto do filme”. Goldman estava determinado a manter a cena no filme, que era uma variação de uma de suas cenas favoritas da novela de King (na novela, Annie decepa seus dois pés com um machado e cauteriza os ferimentos na hora com um maçarico). Porém, nas primeiras conversas sobre manter a versão original desta cena, Goldman não quis manter o original, pois seria nojento e violento demais para a audiência, entretanto no roteiro revisado de Rob Reiner e Andrew Scheinman, que mudava a cena para a que está no filme, Goldman também não quis que ela fosse incluída, de cara, isso pelo menos até ele ver a incrível e potente cena gravada.
  • Única adaptação de Stephen King até hoje a ser premiado com um Oscar, no caso Oscar de Melhor Atriz, para Kathy Bates.
  • Kathy Bates ficou desapontada com o fato da cena em que ela atropelava um jovem policial com um cortador de gramas repetidamenter ter sido cortada da versão final do filme. O diretor Rob Reiner estava com medo de que a audiência poderia rir da cena. Este momento que acentua ainda mais a crueldade do personagem está presente apenas no livro.

 

  • Alberto Kuhn Klumb

    Boa crítica. Gosto quando não se faz comparação do livro com o filme. Não dá para colocar tudo do livro no filme.

    Uma curiosidade: quando falas “King conseguiu “antecipar” algo que ele mesmo viveria em 1999 quando foi atropelado por uma van e, por muita sorte e um tratamento intensivo, conseguiu sobreviver”, isso foi mostrado muito depois em Kingdom Hospital, uma boa série que vale a pena ser vista.

    • Realmente, a linguagem de um filme é bem diferente de um livro, ambas tem seus altos e baixos e como um filme…esse ficou muito bom.
      Sim, assisti essa série, a referência é bem forte mesmo. Obrigado pelo comentário.

      Abraços!