[Resenha] Desespero do Stephen King

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Comecei a ler Desespero sem ter a mínima ideia do que viria pela frente. Me surpreendi quando, ao terminar, me toquei que tinha acabado de ler o livro mais religioso de King até agora (não li todos).

Nele, a questão de Deus, como ele age, ajuda, ama e é cruel está presente cada vez mais, conforme avançamos as páginas. É bem mais forte do que em A Dança da Morte, onde Abagail, uma das personagens, precisa ouvir a voz de Deus para tomar as atitudes corretas.

Desespero não é somente o sentimento constante no livro, mas o nome de uma cidade (imagina). A cidade está próxima à Rodovia 50, conhecida como a rodovia mais deserta dos Estados Unidos.

Nela, viajam Peter e Mary que estão em férias. Acabaram de visitar a irmã de Peter e agora viajam pela rodovia 50 onde a paisagem é o deserto e a companhia são os rolos de palha pelo caminho. Deparam-se então com mais uma companhia inusitada e um tanto assustadora. É um policial. Ele pede para que Peter encoste. Essa cena é carregada de suspense, daquelas que nos deixa tensa. King trabalhou muito bem nela. O policial tem quase dois metros de altura e eles sentem medo dele. Não medo de uma multa, mas de que ele simplesmente peça a Peter para descer do carro, o mate e depois estupre sua mulher. Porém, eles acabam rindo de si mesmos com a grande paranóia até que o policial encontra algo no carro dos dois, algo que não era pra estar lá. Um pacote de drogas. Cortesia da irmã de Peter. Foram presos e agora o policial é realmente assustador.

— Vocês têm o direito de permanecer em silêncio – disse o policial grandão com voz de robô – Se preferirem não permanecer em silêncio, tudo o que disserem pode ser usado contra vocês numa corte de justiça. Têm direito a um advogado. Eu vou matar vocês. Se não puderem pagar um advogado, um lhes será proporcionado. Compreendem seus direitos, como expliquei?

Pág. 29
Peter e Mary são levados para a cidade onde o policial trabalha, Desespero. E se deparam com uma cidade fantasma. Conhecemos as primeiras vítimas de Collie, que endoidou e matou a maioria das pessoas de Desespero.

Em seguida, a família Carver que também viajava de férias, têm os quatro pneus do trailer furados e um policial enorme aparece para ajudar e os leva gentilmente para a cidade mais próxima.

— É mesmo? – disse Ralph – Uau. Quantos policiais vocês têm num lugarzinho deste, seu guarda?

— Bem, tinha mais dois – disse o tira, o sorriso na voz mais óbvio que nunca – mas eu matei.

Pág. 46
A última vítima que Collie encontra na rodovia 50 é Johnny, um velho escritor que vivia lembrando a si mesmo que ganhara o Prêmio Nacional do Livro. Ele está viajando em uma moto buscando inspiração para seu novo romance. Quando estaciona na rodovia 50 para urinar, se depara com um policial muito alto, que o adverte. Incrivelmente Johnny é preso por carregar algo em sua moto. Um pacote de drogas, muito parecido com o encontrado no carro de Peter.
— E então o quê?
— Vai cuidar disso ou não? Tak!
O coração de Johnny disparou.
— Tak, que quer dizer isso?
— Não fui eu que disse tak, foi o senhor. O senhor falou tak.
O policial cruzou os braços e ficou sorrindo para ele.
Pág. 63
Conhecemos também Steve, que trabalha para Johnny e o seguia em um furgão para quando o grande escritor precisasse de algo e Tom, também preso como os demais, mas não veio da estrada, é um dos poucos sobreviventes de Desespero.

A personagem principal do livro é David, filho de Ralph Carver. É ele que tem o contato com Deus, é por causa dele que conseguem escapar da prisão. Ele é o maldito menino rezador.

— Está pensando em Deus? – perguntou o policial – Não se dê ao trabalho. Aqui, o território de Deus termina em Indian Springs, e até mesmo o Senhor Satanás não põe os pés muito ao norte de Tonopah. Não tem Deus em Desespero, bebezinho. Aqui só existe can de lach.

[…]

As vozes deles eram distantes agora, fugindo, mas antes que desaparecessem inteiramente, ouviu seu pai dizer:

— Desmaiando, não. Rezando.

Não tem Deus em Desespero? Bem, vamos ver.

Pág. 96

Tudo gira em volta de David e no que Deus pede a ele para fazer. A súbita loucura de Collie se deve a algo desenterrado na Mina do China. Algo que já foi descoberto e causou muitas outras mortes. Algo que deveria ter se mantido enterrado.

O livro não me causou medo, mas o suspense me deixou tensa várias vezes. Como eu disse, King trata da crença em Deus como algo essencial para a sobrevivência. Isso não me incomodou. Ele não fala de pecados e obrigações, constantes nas religiões. Denota a parte que somente crer e ter fé é o suficiente. Me perguntei se caso algum ateu o lesse isso não se tornaria enfadonho.

Há uma citação dos tommyknockers e quem leu Os Estranhos vai ver certa semelhança com o que aconteceu em Haven. Citações de A Torre Negra também estão presentes, mas não vou citá-las, porque ainda não li a série.

O final denota fortemente a questão mostrada no livro: Deus é cruel. Mas de qualquer forma, ele também é amor.

Leiam e tirem suas próprias conclusões.

Ficha Técnica:

Capa Desespero SUMA.aiEditora: Suma de Letras

Autor: Stephen King

Origem: Estrangeira

Título original: Desperation

Ano: 2001

ISBN: 978-85-8105-004-1

Número de páginas: 385